Eu era criança, ainda; tinha provavelmente nove anos, no auge das minhas inseguranças misturadas com vontade de viver alegremente, aproveitando cada momento (pena que os momentos não eram assim tão bons). E estava com três outras crianças muito queridas, dois meninos e uma menina, em frente à casa da minha vó, brincando em volta de uma árvore. A árvore tinha um tronco grosso e copa muito cheia, com rosas cor-de-rosa imensas, brilhantes. O vento estava forte, mas agradável, com temperatura perfeita. Ríamos muito, enquanto as rosas se desprendiam dos ramos e voavam em nossa direção, deixando rastros de um perfume delicioso.
Um moço apareceu no portão, acompanhado de um porquinho médio, preto e branco, muito fofo, e parecia estar sendo muito bem tratado. Até que o cara disse que, como era natal, o porquinho seria parte da ceia. No mesmo instante em que o porquinho ouviu isso, olhou diretamente para mim, nos meus olhos, e pediu para eu não permitir que isso acontecesse. O desespero dele era tão grande, e ele já podia pressentir a dor e o sofrimento que estavam por vir. E eu também senti tudo isso; senti tudo junto com ele, em uma união telepática inexplicável para quem prefere não enxergar as coisas. Enquanto o porquinho era levado para os fundos para ser "sacrificado", olhando para trás e me pedindo com os olhos, eu me desesperei e comecei a chorar copiosamente. O sentimento era tão forte. Como é doloroso viver em um mundo onde se mata bichinho. Será que eu posso me mudar para um outro mundo? Será que isso vai durar para sempre? Quantos animais estão morrendo repletos de sofrimento neste exato momento?
Acordei chorando muito. Solucei tanto que meus pulmões doeram. Mas eu, garota abençoada que sou, estava passando a madrugada do natal ao lado do Maioral, o cara mais lindo que há. Ele me acolheu e acalmou, me trouxe um copo d'água e ficou bem perto até eu dormir de novo. Ele me entendeu de verdade, ele também, como eu, parou de comer carne em um natal, assustado com o fato de pessoas comemorarem o nascimento do barbudo doidão exibindo animais mortos inteiros na mesa de jantar.
Esse sonho de natal foi doloroso e, ainda assim, muito mais bonito que a realidade.
Que venha o sonho de reveillón.
Who?
- Debora Helena
- São Paulo, São Paulo, Brazil
- Desesperada e entusiasmada. Resmungona e sorridente. Divirto-me com pouco.
Good times, bad times
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