Pesquisando coisas (para desenhar o imenso projeto de um prédio comercial sofisticadíssimo que a Varandona está fazendo para a faculdade) no completo mas nem tanto Neufert - Arte de projetar em arquitetura, encontrei uma parte que ensina a projetar cemitérios; crematórios, necrotérios, lápides. E lá é dito que o terreno mais favorável é com bastante terra, úmido etc.
Ainda me lembro da decepção que foi ver o caixão do meu pai sendo "enterrado" com cimento. Que gente mais sem espírito poético! Outra lembrança dolorosa desse fato é ver um monte de gente da "família" e ninguém vir falar comigo e minha irmã. Tínhamos 13 e 5 anos, respectivamente, na época; que gente mais sem educação e sensibilidade I'm related to! A única pessoa que me deu as mãos e disse um quase sincero "sinto muito" foi a esposa do dono da banda em que o recém-defunto tocava. A pessoa mais distante é que conseguiu ser um tiquinho acolhedora.
Lembro também que não queria de jeito nenhum entrar na sala onde ele estava sendo velado. Sentada do lado de fora, com a camiseta do Dejavu (a tal banda), sem saber o que sentia -- um misto de dor, alívio, auto-piedade. Minha mãe me convenceu a vê-lo, argumentando que seria a última vez e tudo o mais. Cheguei lá dentro sem sentir meu corpo. Avistei o caixão preto lacrado (só havia vidro no rosto dele, que estava sorridente e tranqüilo) e continuei andando, ou sendo levada, não sei. Coloquei meus olhos lá dentro e então senti minhas pernas e ombros pesando toneladas. Soluço. O soluço mais verdadeiro, intenso e doloroso. Gritos. Tudo muito real, vindo de um interior inexplorado e secreto de mim mesma.
***
Pensei que tinha curado todo e qualquer resquício e/ou seqüela (treminha linda ♥) por ter sido rejeitada na infância e pré-adolescência.
Mas nas últimas semanas meu cotidiano tem sido tão encatador que minha estúpida insegurança preparou e está pajeando um sentimento quase desesperador de inadequação. Parece que quanto mais me esforço para ser agradável (sem deixar de ser Bululu, obviamente; minha irremediável transparência combinada com impulsividade não permitiriam), mais inadequada e inconveniente me torno, diante das dádivas todas.
***
Sou uma menina sem perspectiva de novo. Quer dizer, tenho uma perspectiva. E só uma. Que é visivelmente impossível de ser concretizada.
This entry was posted on 11:36
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2 tagarele também!:
Dé... vc tb escreve muito bem!
Beijocas
e saudades.
Kcau
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é tudo no megaupload, mas é só procurar um link generator
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